
O que vou relatar já aconteceu há uma semana. Mas o assunto é intemporal, portanto tanto faz escrevê-lo agora como daqui a dois meses.
Apenas venho exemplificar de uma forma muito simples a maneira diferente como nós, Portugueses e eles, Ingleses, encaram um jogo de futebol.
No último fim de semana, o Man Utd venceu o Fulham em jogo a contar para a Premier League. Como ávido espectador de muitos anos da Liga Inglesa, procuro ver sempre os resumos da jornada. Idealmente na Sky ou na net. Quando tal não é possível, tento fazer ouvidos mudos às aberrações que são as (péssimas) prenuncias dos nomes das equipas Inglesas por parte dos comentadores Portugueses e vejo os pequenos resumos na RTP e/ou restantes canais Portugueses.
Acontece que no último fim de semana apanhei o resumo deste jogo em particular tanto na Sky News como na RTP N. E não podia haver uma prova tão clara da forma diferente como os dois países encaram o futebol. E é tudo muito simples.
Ambos os resumos tiveram a duração média de dois minutos. Eis os pontos focados por cada um deles:
RTP N: Começam o resumo a dizer o nome do árbitro da partida (Sr. Peter Walton). Mostraram os lances de maior perigo, os lances mais duros (alguns deles duvidosos) com direito a cartões amarelos, os três golos (obviamente que repetiram o golo de Ronaldo inúmeras vezes, mas isso é perfeitamente compreensível) e acabaram o resumo a mostrar um lance polémico que fechou a partida (possível penalty de Van der Sar sobre um jogador do Fulham);
Sky News: Limitaram-se a mostrar os maiores lances de perigo, enunciando os nomes dos jogadores protagonistas dos lances e os três golos do jogo (grande golo de Cristiano Ronaldo, por sinal);
Nestes singelos dois minutos ficaram expostas as diferenças abismais que existem relativamente às perspectivas de ambos os países em relação ao jogo do povo. Para os Ingleses, aquilo que merece ser realçado é a arte do jogo, os lances mais bonitos e aquele que é o objectivo primordial do jogo e o momento de maior êxtase: o golo. Nomes? Só dos artistas. Dos jogadores. Daqueles a quem realmente interessam aos amantes do futebol. Nem por uma vez, em qualquer resumo de um jogo de futebol na Sky News ou na BBC, por exemplo, falam do nome dos árbitros, e muito menos dão mais destaque aos lances passíveis de gerarem polémica em sacrifício da arte de bem jogar e de marcar golos. Em Inglaterra, poucos ou nenhuns são aqueles que sabem sobre a vida pessoal dos árbitros de Futebol, qual ou quais as profissões que tiveram, de onde são, etc. etc.
Em Portugal passa-se exactamente o inverso. Todos nós sabemos, por força dos programas sobre o desporto rei que por cá se fazem, qual o nome dos árbitros da Liga Bwin, quais as suas profissões no dia-a-dia, de onde são, etc. etc. Basta ver o programa
"O Dia Seguinte" da SIC Notícias ou o
"Trio de Ataque" da RTP N para se ouvir falar mais dos árbitros e dos lances duvidosos (e isto para não falar sobre os Dirigentes...), do que a arte do bem jogar futebol em si. A chachada de programa da TVI ao domingo à noite até vai para intervalo e regressa para uma parte intitulada
"Casos", tendo um Ex-Árbitro, Jorge Coroado, que passa o resto do programa mudo, estando presente apenas com o intuito de discutir o penalty mal assinalado ou o cartão vermelho que ficou por ser mostrado. Algo que não acontece em qualquer programa de futebol na Terra de Sua Majestade.
Um ponto de vista totalmente diferente e claramente visível num resumo de apenas dois minutos. Há muito que já não posso com jornais, programas de TV e programas de Rádio desportivos Portugueses.
Uns preferem realçar a arte do bem jogar. Outros preferem realçar os árbitros, os dirigentes e os casos. Perspectivas (muito) diferentes do mesmo jogo.